Uma casa não cai pelo telhado. Cai pelo que está embaixo dele. Pelo que ninguém vê. Pela viga que apodreceu no escuro enquanto a fachada seguia impecável, de janelas bem pintadas e porta envernizada. E há sempre um espanto no dia em que ela cede. "Parecia tão firme..." O que não se via é que, por dentro, havia muito tempo que nada a segurava e manutenção alguma lhe era aplicada.
Com as pessoas acontece o mesmo. Talvez você conheça alguém que parecia inteiro e ruiu ao primeiro tremor de verdade: uma perda, uma traição, um diagnóstico, um não que a vida disse quando ele esperava um sim. E talvez conheça também o contrário: aquela figura de aparência modesta que atravessou o terremoto de pé e ainda estendeu a mão a quem caía ao lado. A diferença entre elas está no que as sustenta por baixo.
Passo os meus dias ouvindo casais me contarem, de dentro, como as suas casas foram ruindo. E aprendi uma coisa que quero que você guarde desde já: quase nunca é o telhado. É sempre a viga que ninguém olhou ou zelou a tempo. É disso que vamos falar aqui, você e eu. Vou precisar recuar alguns séculos para começar, mas fique tranquilo, o caminho o trará de volta, e levará direto à sua casa.
Quase nunca é o telhado. É sempre a viga que ninguém olhou ou zelou a tempo.
Os gregos, que sabiam habitar, punham no centro de cada casa um fogo, e uma deusa para guardá-lo. Invocavam-na antes de tudo e depois de tudo, na primeira prece e na última. Não faziam isso por superstição. Intuíam que uma casa não se mede pela fachada, mas pela chama que arde, ou se apaga, lá no meio.
Foi essa intuição que os antigos batizaram de virtudes cardeais, e a palavra guarda um segredo... Cardo, em latim, é a dobradiça, o eixo em que a porta gira. Quatro virtudes, e sobre elas gira uma vida inteira: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Não são enfeites da alma nem medalhas de bom comportamento. São estrutura. Decidem se você permanece de pé quando o vento muda.
E convém desfazer um engano que atravessou séculos. Virtude não é o avesso do prazer, nem prima da rigidez. Virtude é a liberdade responsável que aprende a permanecer fiel ao que reconheceu como bom e verdadeiro. É o que impede que a liberdade se desfaça em cada capricho e, enfim, responda ao que a vida pede. Ninguém descreveu esse pedido melhor que Viktor Frankl. A vida, para ele, não nos faz perguntas no abstrato. Interroga-nos em situações concretas, uma por vez, e espera de cada um uma resposta que mais ninguém poderia dar naquele lugar exato.
As virtudes não respondem por nós... Tornam-nos mais capazes de responder.
Sem elas, a liberdade permanece na promessa. Com elas, ganha corpo. Começarei pela prudência, leitor. Porque antes de fazer justiça ao outro, resistir ao sofrimento, governar os próprios desejos, escolher direito, e responder bem a vida, existe uma tarefa mais humilde e necessária: aprender a enxergar a realidade como ela é.
Prudência (phrónesis).
Há uma cena que se repete em muitas relações que naufragam: duas pessoas discutindo, mas nenhuma falando verdadeiramente com quem está à sua frente. Cada uma discute com um fantasma: uma imagem feita de mágoas antigas e de suposições que ninguém se deu ao trabalho de conferir. Erguem a voz, mas estão sozinhas na sala.
O nome clássico dessa cegueira é imprudência.
Poucas virtudes foram tão mal compreendidas quanto a prudência. Costumamos reduzi-la à cautela, ao passo atrás de quem teme arriscar. Mas não é isso. Depois de ouvir tantas histórias no consultório, aprendo diariamente que quase todo grande conflito começa por uma pequena cegueira. Tomás de Aquino deu à prudência uma definição exata: razão reta aplicada ao agir. Não é hesitação. É lucidez antes do gesto.
É ver.
Ver o chão em que se pisa. Ver a pessoa que está diante de nós, na sua verdade, e não no retrato torto que dela pintamos numa hora de raiva. Ver, sobretudo, a fronteira entre aquilo que eu gostaria que fosse real e aquilo que realmente é. Ver com atenção.
Frankl deu a esse ato outro nome. Chamou-o de consciência: o órgão pelo qual percebemos o sentido escondido nas situações. Há aqui um belo encontro entre os dois, mas convém uma breve distinção. A consciência, em Frankl, é o olhar da prudência; não é a prudência inteira. Enxergar o que a situação pede é apenas o começo.
A prudência precisará também da memória, para não tropeçar duas vezes na mesma pedra. Precisará da humildade, porque ninguém enxerga sozinho todos os ângulos de uma circunstância. E precisará da presteza de decidir quando o momento pede, pois o tempo não nos espera.
O prudente lê a circunstância como o velho marinheiro lê o mar: atento ao que está diante dos olhos e ao que ainda vem de longe, a sombra que ainda é só ameaça no horizonte.
Quantos amores teriam sobrevivido se, num certo dia, alguém tivesse abandonado a discussão com o fantasma e mirado atentamente, simplesmente, para o rosto real que estava à sua frente?
A prudência é esse olhar. É o primeiro pilar, porque nenhum dos outros se ergue sem ele.
Justiça (dikaiosyne).
Existe uma traição que quase ninguém percebe cometer, pois muitas vezes ela veste a roupa do "amor". É a de transformar o outro em peça da própria necessidade. Reduzi-lo ao que ele ou ela nos serve, ao conforto que nos traz, ao papel que cumpre no enredo que nós mesmos escrevemos. De repente já não há uma pessoa ali. Há um instrumento. E o mais grave é a inocência com que fazemos isso, sem malícia, quase sem notar. Acontece com quem amamos, mas acontece também com o colega que só existe para nós enquanto é útil, com o amigo de quem só lembramos na hora do aperto. Isso é sério...
Justiça, diziam os antigos, é dar a cada um o que lhe é devido. Soa a coisa de tribunal, fria, contratual. Mas há um primeiro devido que precede todos os outros, e é o mais esquecido: o direito que o outro tem de ser visto como é. Inteiro. Existindo por conta própria, com um peso que não nasce de mim nem depende de mim para existir.
Frankl tocava aqui a mesma corda que Martin Buber dedilhava. Amar, dizia ele, é enxergar no outro aquilo que tem de único, o que jamais existiu antes e nunca mais tornará a existir. Reconhecer isso já é o começo de toda justiça.
É devolver à pessoa o seu tamanho verdadeiro, em vez de recortá-la à medida da nossa conveniência.
Repare no que acontece quando essa virtude falta. Quem a perde já não vê direito: o ressentido é um belo exemplo desta falta, pois lê ataque em toda intenção, perseguição em toda crítica, abandono em todo silêncio, desconfiança em todo convite. A balança dele empenou. Prato largo para as próprias dores, prato mesquinho para as dores dos outros.
Voltemos aos gregos, pois estes contaram esse perigo numa história que não envelhece. Orfeu desceu ao reino dos mortos para buscar Eurídice, e comoveu com seu canto até os senhores das sombras, que lhe concederam o impossível, levá-la de volta à luz, sob uma única condição: caminhar à frente sem se virar para olhá-la, confiar que ela vinha atrás, sem medo ou hesitação. Estavam quase na saída. O sol já tocava o rosto dele. E então a dúvida venceu... Virou-se, um instante antes da hora, e viu a amada recuar para todo o sempre, dissolvida na escuridão de onde a quase resgatara.
Guarde esta cena agora, porque ela repete, no invisível, o que tantos fazem em casa, no trabalho, na amizade: o olhar que se vira cedo demais para conferir, que exige a prova antes do tempo e não suporta confiar sem enxergar. Você já fez isso com alguém. Eu também. Todos nós já perdemos algo por não sabermos esperar de olhos fechados, resignados e calmos diante do silêncio.
Portanto, leitor, a justiça é a mão firme que não se vira à toa. É confiar o peso certo, no tempo certo.
Fortaleza (andreia).
Este pilar Frankl não aprendeu nos livros. Aprendeu num campo de extermínio.
A filosofia clássica já dissera que a fortaleza é perseverar no bem apesar do sofrimento. Definição exata, e ainda assim vazia, até o dia em que se vê a coisa acontecer diante dos olhos. E Frankl viu... Viu homens reduzidos a nada, sem a menor esperança de saírem vivos, repartindo o último pedaço de pão, encontrando forças para consolar quem estava pior. Não havia recompensa alguma à vista.
E era justamente por não haver recompensa fora que se revelava uma razão dentro.
Um porquê que o horror não conseguiu alcançar nem arrancar do coração dele. Nietzsche escrevera que quem tem um porquê suporta quase qualquer como. Frankl carregou essa frase consigo por aquele ano, e pelos outros dois que o sucederam, e de lá a trouxe confirmada.
E aqui é fácil entender errado. Por isso preste atenção: fortaleza madura não é ausência de dor. Não é a pose de dureza de quem finge não sangrar. É permanecer fiel àquilo que dá sentido à vida mesmo quando o sentido cobra caro da gente.
No amor, essa virtude tem um nome de uma sílaba: ficar.
Ficar quando o encantamento passou e a pessoa inteira apareceu exatamente como é, com os defeitos que a paixão maquiava. Ficar na doença, no desemprego, naquele ano em que quase tudo deu errado, na dor diante de falas e decisões equivocadas. Não o ficar resignado de quem apenas tolera, mas o ficar fecundo de quem atravessa e sai do outro lado com o laço mais fundo do que era quando entrou. E o mesmo vale para tudo o que se constrói devagar: uma obra, uma pintura, uma vocação, um filho, um trabalho, um livro. Nada que valha a pena resiste sem esta virtude, meu caro.
Pense em Hefesto. Ele era o único feio numa corte de deuses belíssimos, rejeitado pela própria mãe, que o atirou por desgosto do alto do Olimpo por vê-lo imperfeito, e assim o deixou coxo para sempre. Ele tinha tudo para apodrecer em amargura, mas fez o contrário: desceu à forja, e daquele mesmo fogo que o havia marcado tirou as coisas mais delicadas que os deuses já conheceram: joias, diademas, tronos lavrados em ouro, poderosos anéis. Não fugiu da ferida, nem a exibiu pedindo pena.
Levou-a para a bigorna, e de lá a devolveu ao mundo transformada em beleza.
Temperança (sophrosyne).
Se a fortaleza sustenta o vínculo por fora, contra o que o ataca, falta ainda o pilar que o sustenta por dentro: contra o que nós mesmos poderíamos fazer com ele. E é esse o pilar que mais apanhou e apanha neste século. Confundiram temperança com repressão. Com cara amarrada. Com um não crônico à vida. Mas é o avesso disso. A temperança não mata o prazer, pelo contrário, ela o ordena. E entre matar e ordenar existe um abismo.
Pense agora comigo, no fogo de uma lareira. Ele existe para aquecer a casa, mas basta escapar do seu lugar, saltar para a cortina mais próxima, para a viga, para um móvel, e num instante a casa que ele aquecia é a casa que ele devora. Entenda, o fogo não ficou mau. Ele perdeu a medida.
A temperança é a guardiã dessa medida: a que não apaga a chama e tampouco a deixa subir pela parede.
Frankl observou uma das formas mais comuns dessa desmedida, e deu-lhe um nome exato: hiperintenção. Para compreender este termo, repare no que direi na sequência, pois é mais comum do que parece. Quanto mais alguém corre atrás do prazer de frente, mais o prazer foge por entre os dedos. Quem exige de si mesmo ser feliz adoece na própria exigência.
Certa vez, um casal que acompanhei por muito tempo no consultório tinha decidido, com todas as forças, ser feliz mais uma vez. Marcaram uma viagem. Aquela que iria salvar tudo. Mas brigaram no aeroporto, antes mesmo de embarcar.
O que aconteceu ali? Quanto mais apertavam as mãos para segurar a felicidade, mais ela escorria por entre os dedos. A felicidade não é um alvo que se persegue. Ela vem por acréscimo. Vem justamente quando deixamos de nos preocupar em agarrá-la e nos abrimos para a realidade: para construir o que precisa ser construído, para cumprir a tarefa que nos espera, para amar algo além de nós mesmos.
A temperança guarda essa ordem, querido leitor. Não deixa o bem menor sentar no trono do bem maior.
Num vínculo, é ela quem separa o desejar do amar. O desejo quer ter, consumir, trazer para si. O amor quer o bem do outro, e por isso sabe esperar e recuar a tempo. Mais uma vez aos gregos. Eles contavam de Quíron, o centauro, metade homem e metade animal, que gastou a vida ensinando heróis a domar exatamente a metade que corcoveava dentro deles. Sem matar o cavalo. Pondo-o a serviço do homem que o montava. O desejo continua vivo, e ainda bem que continua. Apenas trocou de posição: deixou de segurar as rédeas e passou a puxar a carroça.
Ela nos ajuda a colocar a nossa casa em ordem.
Voltemos ao teto.
Acredito que até aqui, diante de tudo que falamos, você já tenha percebido que nenhuma dessas quatro virtudes se sustenta sozinha. Estou certo? Prudência sem as outras vira cálculo gelado. Justiça sem fortaleza recua no primeiro empurrão. Fortaleza sem prudência é só teimosia com outro nome. E a temperança, apartada das irmãs, degenera em disciplina sem calor. Elas se seguram umas às outras.
Erguem-se juntas ou desabam juntas, como pilares que só formam um teto porque nenhum deles carrega o peso da casa sozinho.
Aqui volta o fio que deixei atado lá no começo da nossa conversa: se a virtude é a liberdade que aprendeu a permanecer, então estes quatro pilares são as quatro raízes de uma só liberdade. Aquela que enfim parou de oscilar no vento e passou a responder à vida com firmeza e peso. É por isso que uma pessoa madura nos transmite aquela sensação de solidez tranquila.
Não porque não sinta o vento, mas porque tem onde se firmar quando ele sopra forte demais.
E é debaixo desse teto que se torna possível a coisa mais difícil entre duas pessoas: não dividir apenas o mesmo endereço, o que qualquer convivência resolve, mas erguer um lugar onde caiba de fato uma vida inteira a dois, com a confiança de que ele não desabará na primeira rajada forte que o atingir. Como vimos, a justiça já nos ensinou o essencial disso: morar com alguém não é dissolver-se nele. É sustentar, lado a lado, a mesma casa, cada um inteiro no seu pilar.
E aqui também está o que quase ninguém enxerga a tempo: a viga não apodrece no dia em que a casa cai. Apodrece antes, muitas vezes bem antes, devagar, nos anos em que a fachada ainda parecia dispensar reparo, quando tudo ia bem o bastante para que ninguém precisasse se preocupar com manutenção alguma. Vejo isso com frequência naqueles que chegam tarde demais para consertar a relação aqui comigo: não faltou amor, faltou a manutenção que o amor exige, e que ninguém julgou urgente enquanto a casa ainda não descascava.
A maturidade é o nome de quem se abaixa para olhar mesmo assim, querido leitor. De quem reforça o que sustenta justamente nos dias em que nada parece pedir reforma.
Por fim, há uma última deusa a chamar aqui, e não por acaso a mais discreta do Olimpo. Chamava-se Héstia. Enquanto os outros guerreavam e seduziam e se traíam, ela permanecia no meio da casa, cuidando de uma só coisa, e cuidando dela sempre. Sabia o que todo lar humano precisa descobrir, cedo ou tarde: que a chama que aquece a casa não se acende uma vez para sempre, mas pede lenha ao amanhecer e pede lenha ao anoitecer, todos os dias, sem festa, sem ninguém olhando.
E a lenha, no fim, tem nomes simples: é a conversa que preferimos adiar. É o pedido de desculpas que custa ao orgulho. É a atenção verdadeira quando seria mais fácil o silêncio distraído. É olhar para a pessoa ao lado e vê-la ainda, depois de tantos anos, como alguém que jamais existiu antes e nunca mais tornará a existir. É fazer a sua parte e a do outro, se preciso for.
Cada um desses gestos miúdos, repetido dia após dia, é o que transforma uma casa fria num lar quente e preenchido de vida.
E o fogo da sua, hoje, quem o alimenta?